Em exercício nômade para http://www.devirarte.blogspot.com
Escrito por Diego Medeiros às 11h54
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Fragmentos
Por trás do rangido dos bambus lamentos. Dois em absoluto líquido misturavam-se aos ruídos aguaceiros: todos imensidão.
***
Somente panos; brancos ao sabor do caminhar. A boca, negra, pronuncia, já úmida: Ôrra!
***
: Mulher, parece uma coisa...
***
Mas, vem cá. Que porra é o humano?
***
Passos sisudos, olhar concentrado adiante. Embaixo do braço a Moral prestes a ser declamada.
Escrito por Diego Medeiros às 13h56
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Impasse
Vi-os dispostos lado a lado e meio pensos. Para me certificar da sua realidade, com a ponta dos dedos indicadores, percorri-os em texturas lisas e enrugadas e empoeiradas. Estavam realmente ali, parados, meus desejos. A inércia com que os senti me aterrorizou a alma. Nunca mais me propus desorganizá-los em movimentos desqualificados, no entanto, sinceros. Não...; jamais os percorri seguro. Havia sempre um constante hesitar quando os manipulava. Eu os respeitava, é óbvio. São tantos os nomes que essa realidade-textura inventa. Acho, agora, que eu os respeitava demais. A multiplicidade das nomenclaturas que os mesmos adquiria me esfuziava e, ainda, lamentava. Quão loucas são as sensações que o contato gerado entre nós criava. Desejos, livros, prazeres, medos, razões, visões... Sempre os tive em movimentos matreiros e fugidios entre os dedos. Eu não os definia e quando a pele coçava algo deles me falava. O olho ardia. O medo envolvia. A razão, ora sentimento. Não havia fim e dentro do processo a necessidade de umas inventividades. Nomes pairavam no refluxo do fluxo que já não avançava ou seguia sua linha adiante. Doía, eu sei que doía e o código não captava, ahh, não capta.
Eu sei disso.
Eu sei disso.
Eu sei disso.
Mas, isso, disso, não importa.
O que importa?
Tudo importa. Sim, tudo importa.
Escrito por Diego Medeiros às 19h39
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Sim, eu ainda vivia.
Eu mergulhei em algo que não vislumbrei objetivamente. Estava com os braços estirados avant la cabeça para evitar o impacto. Não evitou, todavia.
Prendi-me em amarras imaginárias, por vezes, criativas. Eu andava, mas não saía do sedimento. Impus-me a correria. O espalhar de terra e sonhos escorriam sentidos que se multiplicavam... e, no entanto, pura falta de atrito. O movimento fazia-se ausência.
Havia aquele instante do latejo. Era a minha chance de inventar os passos encravados na terra como libertadores. Fuga! Refugo... a face apontada para o chão ainda liso não era a melodia que tomava todos os arredores.
Não, não é simples. Só os olhos transformaram-se em boca; semi-abertos e úmidos denunciavam minha ânsia em comer, antropófago. O que saltava em brilhantes cores pode ser desejo contido em modelos. Assim, ficaria mais simples deglutir dentro de mim. Estaria fixo, semelhante a mim.
Fechei os olhos e emergi. O sol queimou aquilo que me definia. O ar inflou os pulmões a ponto de explodir-me em micro particulazinhas. Sim, eu ainda vivia.
Escrito por Diego Medeiros às 15h22
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Bocejo
Um: Quero baixar a cabeça e dormir.
Outro: O ato de querer é sujeito?
U: Não consigo ler, tenho sono.
O: O sono é involuntário.
U: Piso o chão gelado. É potência que afeta? Corpo.
O: O corpo é uma incógnita, melhor, a-significante.
U: A relação com o todo é tradução, quantas há?
O: Ou é tudo? O corpo?
U: Os sentidos são a referência. O corpo os inventou.
O: A vida inventou o corpo ou o corpo inventou a vida.
U: Do que falas?
O: Não era sono? Vida, talvez.
U: Eu não sei pois a pele dos pés já não está gelada. Tateio, pois.
O: Interrogo por impulso-potência. O ar quente das narinas anuncia.
U: Eu sinto. Eu sinto.
O: A resposta, deslizante, não responde.
U: .
O: Dormiu.
Escrito por Diego Medeiros às 15h38
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Ineditismo
Lágrimas escorreram entre muros úmidos.
Andei transmitindo o que só senti depois,
Em linhas dançantes onde li o imperativo.
Ousara em imaginações elásticas, borrachas!
Quando alucinara delirando os cândidos vividos,
Ainda incertos, há que se frisar.
Pois, era o delírio na trilha; puro desconexo.
Paredes subvertem os lamentos do vôo estático.
Enquanto as nuvens, paralelas às grades, arrastam-se.
O corpo, pregado à mente, ensaia um movimento:
Um encontro consigo – a inédita liberdade.
Escrito por Diego Medeiros às 01h20
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Soou a sirene
Soou a sirene.
Antes do estampido já estava pronto. É comum que queira sair correndo ao menor sinal de liberdade. Objetos dentro da bolsa. O primeiro passo é prazeroso, respira-se um novo ar. O segmento de tempo dessa sensação é efêmero. Logo outro limite secular se abaterá sobre a fugidia liberdade. Os territórios são facilmente inventados. Há neles limites que demarcam, permitem. Os espaços que nos fazem são caóticos. Eles interagem com os órgãos: limites que ferem o corpo. Não é a sirene que liberta.
POR UM CORPO SEM ÓRGÃOS! Gritaria desesperado o personagem Artaud. O palco-corpo não é o limite. A geografia vital esconde-se nas entranhas. O pensar adquire intensidade quando não realizado com o cérebro. Cérebro sinônimo de razão. O status da razão é a prisão. O ato de se libertar estaria nos sentidos? Os sentidos criariam? É difícil resistir. Ultrapassar os limites não liberta. Cruzar a porta, ultrapassando fronteiras, pode ser em vão. Então?
Um largo sorriso. É a reação à iminência da liberdade. Insiste-se, pois, há vida. Entre pedras e concretos espalham-se os rizomas. Estar entre, no meio. Uma intersecção de tudo, sem receitas. Os conceitos são líquidos, eis a liberdade e a resistência, derramados sobre o corpo que lateja. Movimenta-se à medida que o corpo pulsa, é outro. Adquire o formato do instante. Não se trata de fugir no permitido.
Foge-se quando não se percebe.
Para dentro de si.
Escrito por Diego Medeiros às 00h48
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Ali e acolá
uma espécie de querer desmontável. sem manual. perco-me. ali tenho afetos, lá, estou afetado. sou um festival. tentativa fugaz de heterogêneo. vês? óbvio que não. sou esse velado.
Escrito por Diego Medeiros às 00h13
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Solidão
Dentro do ar livre estou só. Procuro algo em que(m) me agarrar, vem à mente só o desejo de me encostar, esfregar... texturar. Estou desesperado pra sentir qualquer coisa às tantas da madrugada quente. Sinto sono e outras necessidades que o sobrepõe. Digo tantas coisas para aquele ausente. Nem o cheiro, antes, eu sinto. O que disse volta mastigando minha carne. Estou quase pronto pra, moído, compor qualquer prato de desprezo. Ser devorado pela solidão que mastiga lentamente seu alimento, temperado pelo sal das minhas lágrimas. Dói imaginar que ao lado não reside um alguém. Só alguéns sem gostos, higiênicos, brancos. Cadê as rubras coisas? Aqueles líquidos que umidificam desejos tantos, vivos, incontroláveis...
São só desejos contornos, sem tutano. Indícios de lamentos. Convém mergulhar mãos suadas de ansiedade sobre a carne massa. Montar um corpo latejante que fale coisas de viver. Ou, que silencie enquanto, ofegante, reascenda imagens dos mais loucos devires. A carne, massageada, mostra um tom encarnado. É chegado o momento de intervir? Devir! Murmúrios soam de todos os cantos dos sentidos. Ironicamente, não ouço qualquer coisa de vida. Por enquanto... É a fé que haverá de existir, independente de mim. É forte como os olhos falantes que te cercam: imagem-palavra entre piscadelas de pálpebras serenas, encantadoras.
Olhe-me, então.
Escrito por Diego Medeiros às 23h14
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Clara
Suave a lembrança que me toma. A música não tem nome. Escrevo sem ao menos saber meu nome. Quem espera chama-se Clara. A escrita é ansiosa, pois a mão cansa. Um violino que rasga o ar com seu grito fino e aconchegante. Soa consoante com a vida que respira lenta. Clara tem os olhos grandes, mas serenos. Caminha ao som de uma orquestra filarmônica. Seu sorriso encanta aos incautos. Meu amor caminha comigo, diz-me coisas do seu mundo. Sou-te ouvido atento. Sussurro pelo papel sem nome. Sinto a pele macia, textura divina. Os braços que se abrem ao abraço delicioso do vento. Acaricia meus cabelos, toca meu rosto com curiosidade e amor. Sinto com a ponta dos dedos os rincões do teu corpo, quente desejo rubro. Cerro os olhos e abro os lábios involuntariamente. Respiração ofegante. O papel é um universo e o lápis o que há de deus. Canta o teu corpo e meus pelos ouriçam ao contato da tua música. Gosto de aventurar-me em ti. Massagear tua panturrilha contando-te meu dia. Sugando de ti a energia prazerosa que és. Amo olhar teu sorriso, seu amor em forma de lábios. É assim que te olho, uma paisagem intensa que acelera minha circulação, o coração sobrecarrega. Beijo as folhas riscadas com meus líquidos. Sentes a umidade dos meus lábios tocando leve o lóbulo da tua orelha? A imaginação é minha guia: memória-devaneio. Clara, aponta seus olhos na direção da minha alma! Clamo por ti.
Lancei-me naquela folha avulsa, manchada de mim ao teu corpo. Sou teu, dôo-me em nossos desejos.
Escrito por Diego Medeiros às 23h42
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Poeta Artesão
[...]
Jogou seu texto-movimento;
Alucinadas vidas sem chão.
Ninguém se debruçava ao vento,
Passavam fugidias que são.
São literaturas menores,
Criativas vidas mundanas.
Ilustram cotidianos suores
Em longas caminhadas insanas.
Fixos, dóceis leitores,
Alcançavam em vão
A superfície dos odores.
Vivem fatídica "sensação".
Palavras que não explodem
A potência das singularizações.
Sente-se, assim, as chagas da criação,
O corpo cicatrizado...
...do POETA ARTESÃO!
Escrito por Diego Medeiros às 16h00
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Chuva de Jasmins?
A idéia era dormir cedo.
Depois de ler o texto "Magnólia" já não consegui.
O cansaço que me consumia pelos dias que me engolem já não tinha mais importância.
Ler outra vez o texto.
O que faço naquele texto? Pergunto-me hipócrita.
Não consegui ficar longe dos seus espaços, como previa.
Vontade de macha-los, mas sabemos que é uma vontade insípida, estéril.
Potência de autodestruição ou defesa daquilo que nem existiu.
Fazia tempo que não chorava, conseguimos. Agora, a mesma vontade.
Devo passar por isso, maturar a planta que morre desconsolada, sem um afago ou carinho da água.
Frio, nesse instante.
É um fluxo daqueles, começou racional; só começou.
Não está mais no meu msn, com toda razão e emoção.
As fotos, as fotos, olhos, violetas, olhos, jasmins, PUTA QUE PARIU!
Foda mesmo, foda-se!
Também quero ter o direito de escrever sobre nós, sobre o mundo.
Não resisti, sou fraco, nu diante do monte.
Só queria dizer que não resisti, que não resisto.
Sou um menino torto, insano e burramente racional.
Escrevo merdas que não servem nem de adubo ao terreno mais insuportável;
Engano-me achando graça, o sarcasmo e ironia do moribundo.
Deixar passar é mais cômodo, aborto!
Empurro a poeira para debaixo do sofá, debaixo da minha vida.
Tenho que ler-te sempre, sempre, sempre...
Por que isso?
Por que não passou como deveria e me afetas ainda?
O vazio me afeta junto ao sorriso frente ao carrossel brilhante, girando...
Girando e criando mundos; os envelopes que não são mais rasgados com presentinhos dentro...
Dói agora...
Reticências e o olho permanece tagarela.
Permanece...
Eu permaneço na defensiva como sempre, sempre...
Meia noite e não durmo.
Vou te mandar uma mensagem como as que li hoje no quarto, guardadas não sei o porquê.
Era só pra responder um desejo, não resisti, não vivi, despedi-me.
Reencontro as palavras veladas e mentiras.
Vou olhar a janela e o solo para saber se a chuva é de JASMIM...
Escrito por Diego Medeiros às 23h10
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A mulher e o carro
Aquela mulher atravessava a rua lentamente. No meio da rua, devagar. O carro já se aproximava rápido. Meu coração acelerava, o dela não. Vontade de gritar sons de alerta e fazer sinais de atenção. Não fiz. Ela caminhava calma, sem pressa.
O carro simplesmente desviou do rumo da mulher. Sem buzinar. Nenhum xingamento além do meu interior. Eu gritava por dentro e saia pelos olhos silenciosos. Ela, nem sinal de descontrole, nada afetava o mergulho em seus pensamentos. Passou. A mulher e os carros já não me afetavam. Passaram juntos. Indiferentes. Segui em minha parada de ônibus. Demorava como nunca dando tempo para que sentisse o meu redor.
A mulher e o carro eram eu.
Escrito por Diego Medeiros às 00h02
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Letícia
Diego Medeiros
Um dia chuvoso como raramente se via. Nuvens carregadas de potência líquida.
Estava sentada, olhar fixo num ponto embaçado. Letícia não via. Ouvia os pingos roçar a janela de vidro do seu quarto. Um ventinho frio insinuava sobre sua tez macia. Diálogo suave entre duas coisas que não se apartavam; ela e o mundo. O mundo era ela, ela seu mundo. Tinha uma serena clareza. Os lábios mexiam pronunciando palavras em tom inaudível. Confundia-se com o barulho da chuva. Lábios carnudos anunciavam a fertilidade do corpo. Objetos pareciam rodar sua cabeça num ritmo ligeiramente tímido. Suava, mesmo inerte fisicamente.
Levantou, meio trôpega. Iniciou um caminhar.
Saiu do quarto claustro. Respirou lentamente expirando pela boca o ar quente que saía do seu corpo. Caminhava jogando os pés, mesmo assim, mantinha a pose severa. Havia um desejo em sua volta, deixava-se possuir por ele. Era intenso o que a fazia naquele instante.
Olhou ao redor. Ninguém. Parou de chover. Os barulhos eram outros. Pássaros anunciando, cantantes, tímidos raios de sol por trás das nuvens dissipadoras: lentamente, finos e supostamente encorajadores. Letícia pensava em seu torpor. Abria e fechava as mãos num ritmo forte. Contraía todo o corpo de forma involuntária. Andava mecânica, estranha, sem enxergar nada. Os olhos retos falavam velados. Parecia uma sonâmbula em busca de algo que a despertasse...
A chama que a movia era o desejo.
Lágrimas escorriam pelo canto dos olhos. Sua face fertilizava-se naquele instante. Brotava, assim, uma pele meio corada pelo esforço do choro. Desequilíbrio da respiração. Ainda não soluçava, quiçá, nem o faria. Queria escolher seus passos, criar um caminho. Pensava em fugir ao território; entendeu, enfim, porque iniciara a caminhada. Tratava-se de desbravar aquilo que não a impuseram. Era isso. Esforçava-se, o corpo, em superar a dinâmica amestrada que o possuía.
Tirou toda a roupa.
Nua, olha-se no espelho. Possui marcas que a vida inscreveu sobre seu corpo. Está marcada por hieróglifos talhados pelo movimento. Cores, também. O tom da pele nunca foi visto com cautela, com calma. Tocava-se rapidamente em cremes hidrantes. Esquecida, uma tatuagem de borboleta habitava seu corpo. A pele estava ali, frente aos seus olhos curiosos. Ela só agora percebeu que tinha uma pele. Toca com aponta do dedo, sente a textura. Cheira o braço bem devagar, passando a pele na ponta do nariz. Os pelos roçam suave sua narina. Gostoso, pensa ela. Letícia possui algo dela.
O homem nunca foi sua referência ou, talvez, não mais.
O céu já desponta azul. Um vestido fino cobre agora sua mais recente descoberta. Respiração serena. Corpo vigilante. Distribuía fluxos desejantes em sentidos vários, não havia convergência. Vida com outros olhos... boca, nariz, ouvidos, pele.
Tinha medo. Ah se tinha. Tinha medo do quadro. Inexoravelmente sua descoberta se enquadraria. Tornaria inteligível. Haveria, então, de voar, como a borboleta em seu corpo. Tornar-se um indizível, fugir aos códigos. Desejar o que não cabe aqui. Extrapolar o casulo agradável da mediocridade. Deixar de ser larva.
A larva é uma potência. Potência pronta para explodir.
O ciclo é lacunoso. Letícia sentia dores. A dor "rizomática" que se espalha como uma raiz, pelo corpo buscando a seiva. Movimenta-se. Não pára. Torna-se nômade. Estrangeira. Rolante. Brincante. Mas, chora. Chora a dor e a alegria da criatividade a invadindo. Lágrimas de vida.
De súbito, quebra o espelho.
Escrito por Diego Medeiros às 19h28
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Quarto útil
O quarto era branco, mas um branco já corroído pelo tempo. Fica um tom entre o amarelo e o cinza. A cama ao canto, num rincão escolhido não se sabe bem a razão, fica encostada à parede. O colchão mole, útil até quando suportava o peso do corpo sem arquear tanto; hoje, não mais. Uma colcha bonita o cobre, fica um aspecto asseado, só a superfície. Algumas roupas usadas no canto, ainda possíveis de serem reutilizadas. O travesseiro é de pena de ganso, pesado e macio; espeta um pouco devido a ponta da pena que fura o pano. Sua função? Por a cabeça para ler ou, simplesmente, erguer um pouco mais a cabeça, destacar do corpo ereto que descansa. Dá um status e conforto maior à parte do corpo que pensa. Quando dorme não usa travesseiro. O ventilador é nômade. Aponta para o lado que convém, é um escravo. A brisa é artificial, objetiva, útil e racional. Pelo chão espalham-se sandálias e havaianas. Quase não tem sapatos. O birô é antigo, igual ao nome. Doado e grande. Em cima pequenas coisas e grandes também. Está do lado oposto à cama, pode-se pensar uma oposição de utilidades. Papéis misturam-se com bibelôs, enfeites vários: bonequinhos, grampeadores, artesanato, canetas, marcadores. Um caos reconhecível. Livros empilhados, alguns sem interesse. Outros falantes, até gritantes. Revistas de conteúdo efêmero ocupam espaço no birô. Literatura convivendo com Sociologia. Marx ao lado de Deleuze. Rosa Luxemburg colada à Clarice Lispector. Filosofia ao lado do direito constitucional. Cadernos em branco, em parte. Folhas avulsas com anotações explosivas, "cracks" de São João. Nada demais. Cabem cópias, muitas: colcha de retalhos do pensamento acadêmico brasileiro. Uma altura considerável de papéis dizendo, entre outras coisas, que são cinco anos de experiência universitária. Na escala valorativa o que isso quer dizer? Risos. Gavetas empanturradas de papéis e objetos pouco úteis, ainda estão ali. São três. Há outras coisas. Um guarda-roupa, por exemplo. Velho e repetindo as cores do quarto. Já foi branco e vistoso. A porta está capenga, range ao ato de abrir. Roupas, cds, cuecas, cintos, sapatos, bolsas, apostilas, brinquedos convivem morbidamente. A poeira impera como símbolo do descaso, mesmo assim, é útil. A rede é colorida, não toca o solo. Está como se voasse por cima de tudo. Balança quando solicitada. Balança... Bem próxima à janela. O vento nem sempre é artificial. Ela, a rede, também ventila. Dá uma sensação boa de liberdade. Uma sensação de movimento. É o objeto vistoso do espaço, sem dúvidas. Tem cores vivas. Há qualquer coisa dentro dela. Um corpo inerte, calado, com o busto se movendo lentamente. Ressoa. Qual a utilidade desse corpo na escala valorativa? Risos. Objetivamente? Nenhuma utilidade. Melhor assim.
Escrito por Diego Medeiros às 12h55
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